Vivemos sob uma cultura de receio e
negação da morte, que nos alimenta a crença da permanência, da intocabilidade
da vida, confundindo conceitos como o princípio da sacralidade da vida,
associado ao reconhecimento do valor moral da existência humana, com a noção de
santidade da vida, na qual esta é encarada como algo definitivo e intocável.
Mas lá bem do fundo, uma voz sussurra que não é bem assim...
Camuflamos esses receios, rodeando-nos
de mais confortos, mais tecnologia, mais meios e bens, que nos escravizam ainda
mais. E toda essa passagem acelerada,
impede-nos de olhar para o nosso interior, de pensarmos na vida e na morte. A própria cultura não nos estimula a pensar
nestas temáticas, e infelizmente para a maioria das pessoas isso só irá
acontecer sob condição de uma morte anunciada, e assim nos privamos de uma
morte e morrer serenos e reconciliados. Será que a maioria de nós irá conseguir
despedir-se desta passagem sendo capaz de transmitir: “gosto de ti”, Perdoa-me,
eu Perdoo-te, Obrigado e Adeus”?
Estamos tão embrenhados em questões egoícas, tais como a carreira, sucesso, ter dinheiro suficiente
para comprar um carro novo, o último telemóvel ou PDA, ou em simplesmente
sobreviver ao sistema capitalista e amoral que nos suga diariamente, que não
nos resta mais tempo para pensar a vida, alimentar a alma.
Estamos envolvidos numa imensidão de
pequenas tarefas rotineiras, que nada nos devolvem, apenas servem o propósito
de alimentar o nosso ego e a sociedade materialista e esquizóide. Por isso não
adquirimos o hábito de nos afastarmos e olharmos para as nossas vidas, e dizer
“é só isto? Isto é tudo que eu quero? Falta alguma coisa?
Todos nós desejamos a felicidade. Não
há mal nenhum nisso. Contudo,
grande parte de nós não se sente feliz;
isto por si só deveria ser evidência suficiente de que não estamos no caminho
certo, de que os nossos comportamentos, sentimentos, não estão a ser
canalizados de forma fluída.
Sendo enfermeira, poderia pensar que
talvez fosse mais fácil para os profissionais de saúde despertar para estas
questões, tendo em conta a proximidade que têm com situações limite, com o
sofrimento, com a morte, pois como sabemos é muitas vezes com o confronto com
estas situações que se opera um despertar da consciência e passamos a
"ver".
Acompanhar uma pessoa em fase terminal
faz-nos olhar nos olhos da morte e, muitas vezes do sofrimento, pelo que,
sentimentos de tristeza, compaixão e momentos de angústia são comuns.
Mas em muitas situações são os profissionais
de saúde que mais resistência têm em aceitar a morte. Por mais que saibamos que
é uma inevitabilidade, que é um acontecimento tão natural como a vida, não
acreditamos nem incorporamos tal noção, caso contrário agiríamos de forma
diferente. Sentimo-nos impotentes e teimamos em negá-la, escamotear tudo o que
nos lembre da mesma, corroborando de certo modo o provérbio “ longe da vista,
longe do coração”. Alimentámos a ilusão
de que a podemos combater e até mesmo vencer.
E não será uma luta inglória, tendo em
conta que a morte e a incerteza do momento em que esta vai ocorrer, são as
únicas certezas que nos são dadas? Não seria portanto mais proveitoso
passar o tempo que tentamos ignorá-la, a pensar sobre ela,
em como nos poderemos preparar melhor e viver melhor até esse bardo da
existência chegar? Aprender a morrer, não será uma forma de aprender a viver?
não será essa a verdadeira vitória sobre a morte?
Durante o meu mestrado tive
oportunidade de ouvir uma frase de uma mãe de uma criança que morreu de cancro
que me ecoa aos ouvidos ainda hoje, pela mensagem poderosa e sábia: Ela disse
que " Há meninos que tem cancro,
sobrevivem e vencem o cancro; Mas também há aqueles meninos que não
sobreviveram mas que venceram o cancro". Quantos de nós conseguiriam
dizer estar preparados para morrer hoje?
A dificuldade da maioria dos
profissionais de saúde em lidar com doentes em fase terminal, é bem patente.
Sentimentos de inquietude são frequentes, como recurso a formas mais ou menos explicitas de fuga.
Neste âmbito, ou somos conduzidos a atitudes de abandono terapêutico, por
considerarmos que já nada há a fazer ou por outro lado, pratica-se obstinação
terapêutica, com recurso a medidas fúteis de tratamento, as quais não acarretam
ganhos em conforto e qualidade de vida e
que somente contribuem para prolongar o sofrimento dessas pessoas.
Podemos entrar no quarto dos doentes a medo, inquietos, ansiando por sair ou
preenchendo o tempo e o silêncio a todo o custo. Mas como será que se sentem os
doentes quando também eles a medo, tentam falar acerca das suas preocupa,
nomeadamente sobre a doença e a morte e mudamos discretamente de assunto,
abordando assuntos associados a aspectos banais, técnicos, ritualizados? será
que os mais perspicazes se sentem na obrigação de mascarar o seu próprio
sofrimento para nos poupar?
Estamos a privarmo-nos de uma morte e
morrer dignos, e creio que nenhum de nós pretende despedir-se da vida, numa
cama de hospital, sozinho, assustado e em potencial sofrimento.
Não são necessários mais avanços
científicos, mais meios e tecnologias para que tal aconteça, mas sim fazer
nascer a gratidão, compaixão e humanidade de quem ao dar não espera nada em
troca; urge uma reformulação ao nível da compreensão da humanidade sobre o
mundo em que vivemos, sobre quem somos e sobre o que é a vida e a morte.
Mara Sarmento


