terça-feira, 8 de abril de 2014

Porque é tão difícil pensar em morrer?


Vivemos sob uma cultura de receio e negação da morte, que nos alimenta a crença da permanência, da intocabilidade da vida, confundindo conceitos como o princípio da sacralidade da vida, associado ao reconhecimento do valor moral da existência humana, com a noção de santidade da vida, na qual esta é encarada como algo definitivo e intocável. Mas lá bem do fundo, uma voz sussurra que não é bem assim...
Camuflamos esses receios, rodeando-nos de mais confortos, mais tecnologia, mais meios e bens, que nos escravizam ainda mais. E  toda essa passagem acelerada, impede-nos de olhar para o nosso interior, de pensarmos na vida e na morte.  A própria cultura não nos estimula a  pensar  nestas temáticas, e infelizmente para a maioria das pessoas isso só irá acontecer sob condição de uma morte anunciada, e assim nos privamos de uma morte e morrer serenos e reconciliados. Será que a maioria de nós irá conseguir despedir-se desta passagem sendo capaz de transmitir: “gosto de ti”, Perdoa-me, eu Perdoo-te, Obrigado e Adeus”?
Estamos tão embrenhados  em questões egoícas, tais como  a carreira, sucesso, ter dinheiro suficiente para comprar um carro novo, o último telemóvel ou PDA, ou em simplesmente sobreviver ao sistema capitalista e amoral que nos suga diariamente, que não nos resta mais tempo para pensar a vida, alimentar a alma.
Estamos envolvidos numa imensidão de pequenas tarefas rotineiras, que nada nos devolvem, apenas servem o propósito de alimentar o nosso ego e a sociedade materialista e esquizóide. Por isso não adquirimos o hábito de nos afastarmos e olharmos para as nossas vidas, e dizer “é só isto? Isto é tudo que eu quero? Falta alguma coisa?
Todos nós desejamos a felicidade. Não há mal nenhum nisso. Contudo,
grande parte de nós não se sente feliz; isto por si só deveria ser evidência suficiente de que não estamos no caminho certo, de que os nossos comportamentos, sentimentos, não estão a ser canalizados de forma fluída.

Sendo enfermeira, poderia pensar que talvez fosse mais fácil para os profissionais de saúde despertar para estas questões, tendo em conta a proximidade que têm com situações limite, com o sofrimento, com a morte, pois como sabemos é muitas vezes com o confronto com estas situações que se opera um despertar da consciência e passamos a "ver". 
Acompanhar uma pessoa em fase terminal faz-nos olhar nos olhos da morte e, muitas vezes do sofrimento, pelo que, sentimentos de tristeza, compaixão e momentos de angústia são comuns.

 Mas em muitas situações são os profissionais de saúde que mais resistência têm em aceitar a morte. Por mais que saibamos que é uma inevitabilidade, que é um acontecimento tão natural como a vida, não acreditamos nem incorporamos tal noção, caso contrário agiríamos de forma diferente. Sentimo-nos impotentes e teimamos em negá-la, escamotear tudo o que nos lembre da mesma, corroborando de certo modo o provérbio “ longe da vista, longe do coração”.  Alimentámos a ilusão de que a podemos combater e até mesmo vencer.

E não será uma luta inglória, tendo em conta que a morte e a incerteza do momento em que esta vai ocorrer, são as únicas certezas que nos são dadas? Não seria portanto mais proveitoso passar  o tempo  que tentamos ignorá-la, a pensar sobre ela, em como nos poderemos preparar melhor e viver melhor até esse bardo da existência chegar? Aprender a morrer, não será uma forma de aprender a viver? não será essa a verdadeira vitória sobre a morte?
Durante o meu mestrado tive oportunidade de ouvir uma frase de uma mãe de uma criança que morreu de cancro que me ecoa aos ouvidos ainda hoje, pela mensagem poderosa e sábia: Ela disse que " Há meninos que tem cancro, sobrevivem e vencem o cancro; Mas também há aqueles meninos que não sobreviveram mas que venceram o cancro". Quantos de nós conseguiriam dizer estar preparados para morrer hoje?

A dificuldade da maioria dos profissionais de saúde em lidar com doentes em fase terminal, é bem patente. Sentimentos de inquietude são frequentes, como recurso a  formas mais ou menos explicitas de fuga. Neste âmbito, ou somos conduzidos a atitudes de abandono terapêutico, por considerarmos que já nada há a fazer ou por outro lado, pratica-se obstinação terapêutica, com recurso a medidas fúteis de tratamento, as quais não acarretam ganhos em conforto e qualidade de vida e  que somente contribuem para prolongar o sofrimento dessas pessoas. Podemos entrar no quarto dos doentes a medo, inquietos, ansiando por sair ou preenchendo o tempo e o silêncio a todo o custo. Mas como será que se sentem os doentes quando também eles a medo, tentam falar acerca das suas preocupa, nomeadamente sobre a doença e a morte e mudamos discretamente de assunto, abordando assuntos associados a aspectos banais, técnicos, ritualizados? será que os mais perspicazes se sentem na obrigação de mascarar o seu próprio sofrimento para nos poupar?
Estamos a privarmo-nos de uma morte e morrer dignos, e creio que nenhum de nós pretende despedir-se da vida, numa cama de hospital, sozinho, assustado e em potencial sofrimento.
Não são necessários mais avanços científicos, mais meios e tecnologias para que tal aconteça, mas sim fazer nascer a gratidão, compaixão e humanidade de quem ao dar não espera nada em troca; urge uma reformulação ao nível da compreensão da humanidade sobre o mundo em que vivemos, sobre quem somos e sobre o que é a vida e a morte.


Mara Sarmento 


quarta-feira, 2 de abril de 2014

O medo do Eu

Que vivemos esmagados numa sociedade doente, hipoventilada, voltada para interesses, motivações, valores e virtudes empobrecidos e gastos, não me parece novidade para nenhum de nós.

Somos frequentemente avassalados com a inquietude interior que nos grita que o "tempo" não chega para tudo o que temos para fazer, por sensações de tédio e aborrecimento pelas actividades que fazemos, pela crença de que poderíamos estar a fazer algo mais qualificado, mais divertido, reclamando mais mérito e reconhecimento. Todo este peso, por si só, é suficiente para por em combustão qualquer interior menos preparado.

Passamos grande parte "do tempo ruminando sobre acontecimentos do passado ou por outro lado, preocupados e ansiosos com situações que ainda não chegaram e que provavelmente nunca chegarão, pelo menos de acordo com os que conjecturámos. Diria portanto, que vivemos a maior parte da nossa vida ausentes, fora da única entidade que existe - o momento presente, presos à ilusão de permanência.

A maioria das pessoas vive segundo um plano pré estabelecido, em que grande parte da sua existência está orientada para actividades quase transversais: passar a adolescência e inicio da idade adulta mergulhadas em livros cujos conteúdos não se incorporam necessariamente em conhecimento e sapiência para um "melhor viver";  conseguir um trabalho que permita sustento económico e o máximo de conforto externo; preencher o dia com actividades mundanas, equacionando objectivos que não vão além de ter casa de férias ou aquele carro moderno, quem sabe casar, ter filhos e trabalhar, trabalhar, trabalhar, na ânsia de posteriormente " gozar" o que há-de vir, mas que raramente chega, porque nos tornámos vitimas do cansaço e vazio interior que alimentámos.

Enchemos a vida coma actividades e tarefas  sistematizadas, compulsivas, a que cegamente gostamos de designar responsabilidades e feitos da vida adulta, mas que não passam de uma celebração da forma e do ego, deixando muito pouco espaço para pensar sobre o que realmente importa e para o crescimento interior. Tornámo-nos criaturas egoístas, egocêntricas, pouco humildes, que se comportam como sendo indissociáveis do resto da natureza; julgamo-nos seres superiores, criados, claro está, à imagem e semelhança de um Deus perfeito, mas que nos castiga pelas nossas imperfeições e pecados.  No mínimo paradoxal.
Todas as agressões aos outros seres e elementos da Natureza, são justificados em prol da sobrevivência e do  "bem comum", que de comum apenas tem a inconsciência humana. Esquecemo-nos de que nada pode existir de forma isolada e sem continuidade e tudo o que fazemos terá efeitos no todo do qual fazemos parte. O preço a pagar será caro e provavelmente não teremos saldo para cobrir tamanha dívida.

Com uma alma semelhante a um copo vazio, deambulamos  pela vida como sonâmbulos, apegando-nos  às coisas, às situações, ao ego e vivemos para acumular e ter.  Julgamos que as coisas materiais, as formas, tais como, os carros, casas, papel profissional, imagem física, entre outros,  definem a nossa identidade e é dessa forma superficial que julgamos os outros. E quando as formas se transformam e desvanecem, como por exemplo a perda de um corpo esbelto em consequência do envelhecimento, sentimo-nos perdidos, esburacados, porque de facto, não construímos mais nada para além disso. Apegámo-nos à forma, esquecendo a sua efemeridade.

A pressão idiossincrática cultural e social do que é correcto e errado, do que é aceitável e inaceitável do que é bonito ou feio, serve como barómetro do que julgamos ser enquanto pessoas.  Identificando nos com essas noções e podemos acreditar que face a determinadas perdas está vinculada uma perda de dignidade : alguém que se torna dependente de terceiros para se autocuidar, por exemplo. Esquecemos a pessoa, o invisível e inominável.
Não obstante, em raros momentos, cada um de nós é invadido por uma sensação de desconforto, que advém de um singelo momento de consciência, em que auto-questionamos o rumo que estamos a dar às nossas vidas, a sensação de vazio e de incompletude que nos preenche, de falta de sentido. Talvez nesses momentos, sejamos inundados por motivação e abertura para nós mesmos, numa ânsia de crescimento, plenitude e sintonia interna e externa. Poderemos ser assombrados por questões como : estarei a contribuir para a minha comunidade, para a Natureza? tenho uma alma com quem partilhar a vida? Sei o que é o Amor? Estou em sintonia comigo mesmo, como a minha essência, como a humanidade, tanto quando posso ser e estar?
Talvez pensemos em começar a praticar alguma actividade espiritual, a meditar, a ter mais contacto com a natureza, em oferecermo-nos como voluntários, em ser mais tolerantes e humildes ou viver num local mais sereno e sem tantos confortos externos;  não obstante, passado algum tempo, voltamos exactamente aos mesmos padrões ocos, fúteis, robotorizados.
E porque será que é tão difícil para o ser humano abandonar estes padrões? Porque será que passamos o tempo ocupados, para que não reste espaço para o silêncio, para o vazio, para a serenidade? porque temos tanto receio do silêncio, que conforto encontramos no ruído? Será porque corremos o risco de confronto com aquele ser com quem passámos toda a vida, mas que a maioria de nós não chegou a conhecer? qual a génese do medo do eu? Teremos receio de chegar à conclusão que não sabemos quem somos ou que não gostamos do ser que nos tornámos ?  quem é o "verdadeiro eu"?

Numa perspectiva de mindfullness poderíamos considerar que tal resistência ao movimento interior é causado pelo ego, que tenta salvaguardar a nossa identificação com o mesmo, contaminando-nos com ruído constante e ruminações negativas, que julgamos fazerem parte do que somos, da nossa verdadeira natureza. Mas naqueles parcos momentos em que nos abandonamos na contemplação de  uma paisagem bela, no espaço entre duas notas musicais, entre cada inspiração, tocamos a face mais pura e descontaminada que nos habita, pois tal como as formas não teriam existência sem o espaço, o som não existiria sem o silêncio, também nós não poderíamos existir sem essa dimensão informe, espacial, silenciosa, que constitui a essência de quem somos. Essas duas dimensões da realidade - forma e essência, constituem o Ser. Não será por acaso que ao contemplarmos algo belo, muitas vezes, só conseguimos dizer que ficámos sem fôlego, sem palavras, como se por magia congelássemos o tempo entre duas inspirações, pairando em suspenso nesse espaço vazio e etéreo.
Por outro lado, se em parcos momentos nos conseguimos colocar em perspectiva, pensar sobre o que pensa, tendo consciência dos pensamentos gerados pela nossa mente, das nossas emoções e do seu impacto visceral, é porque a totalidade do nosso eu está para além disso. Há mais um elemento em nós que desconhecemos. Neste âmbito, ao sermos espectadores de nós mesmos, podemos reconhecer as emoções e pensamentos que se esculpem diante dos nossos olhos  penetrar na experiência profundamente, e sem interferir, deixar que os pensamentos e emoções se  afastem, sem nos apegarmo-mos a eles.  Mais lúcidos, iremos conseguir largá-los e deixar de ter medo. 


Mara Sarmento 

Mara Sarmento Drawing

terça-feira, 1 de abril de 2014

Ali estavam, num ensejo de liberdade, mergulhados em quatro paredes insípidas, brancas, impessoais, em redor de uma cama de hospital, tentando fervorosamente fixar o tempo, perverso ilusionista, com uma pequena máquina fotográfica: dois adolescentes e sua mãe.
Ali estava, um homem de 40 anos, com as chagas da implacável doença que teimosa tardou em avisar que chegara. Edemaciado, com alopecia, astenico, com um hálito fétido, com dor abdominal, mas lúcido. Sempre lúcido.
As horas passam e a pouco e pouco a doença vai gritando mais alto, cada vez mais alto e o pai deixa de se conseguir ouvir; à medida que o corpo perde vitalidade e que a dor cresce galopante, teimando em resistir à morfina, a mente num golpe ágil de protecção, tolda, turva, gerando um estado de torpor, que vela, como que preparando a alma para o caminho que há-de vir.
Um odor intenso envolve agora a atmosfera. Aos soros, acrescenta-se mais uma linha endovenosa, para perfusão continua de morfina.
A mãe não contem agora o choro, partilhando que sente que o marido irá deixá-la hoje.
As crianças deixam de conseguir entrar no quarto. Cá fora, o rapaz tenta controlar a postura, não fala, não se expressa emocionalmente. A rapariga, chora compulsivamente.
Está na hora de um familiar levar as crianças para casa. A mãe pede que se despeçam do pai. As crianças resistem, não conseguindo entrar no quarto onde, na cama do meio, estava o seu pai - a morrer.
Após muita insistência eles entram sufocando em medo. Ele vai à frente, entra apressado, mas não lhe toca, não fala. A mãe diz para se despedir; a criança aflita interroga: " mas o que é que eu digo?", dando um beijo fugaz e amedrontado na testa do pai. Nunca fora preparada para aquilo. Tal como a maoria de nós.
Afasta-se rapidamente e abandona o quarto. A menina entra em seguida, as lágrimas escorrem sem hiatos, sem paragens, cobrindo o rosto agora vermelho, franzido. Tenta recuar, mas a mãe insiste e ela num movimento flagelado, de coragem e desespero, segura o pai na face e dá-lhe um beijo profundo, sentido, prolongado. Dá o último beijo ao seu pai. E ela sabe. Todos nós sabemos. E humildemente entregamos o que somos, o que sentimos, o que sabemos, expondo a nossa vulnerabidade perante a esmagadora vilã.
A esposa fica no serviço durante essa noite, segurando o ténue fio que o prende à vida. Agora 6h: Toca a campainha de chamada. O fio partiu-se.
A dor ficou, agora presa a outro corpo, cravada no peito daquela mulher que em desespero sussurra abanando levemente o ombro do marido : "acorda, acorda (...)", mesmo sabendo que este já partira... Também ela não estava preparada. O silêncio.
Durante hora e meia tenta despedir-se, tenta aceitar, reformular... Mas como?! E lentamente sai do quarto, do serviço, do hospital, de alma despida, mas pesada, em direcção a uma paragem de autocarros, levando consigo apenas um casaco do homem que amou e acompanhou, até à eternidade.
Deixo as reflexões para o leitor.

Mara Sarmento