Que vivemos esmagados numa sociedade
doente, hipoventilada, voltada para interesses, motivações, valores e virtudes
empobrecidos e gastos, não me parece novidade para nenhum de nós.
Somos frequentemente avassalados com a
inquietude interior que nos grita que o "tempo" não chega para tudo o
que temos para fazer, por sensações de tédio e aborrecimento pelas actividades
que fazemos, pela crença de que poderíamos estar a fazer algo mais qualificado,
mais divertido, reclamando mais mérito e reconhecimento. Todo este peso, por si
só, é suficiente para por em combustão qualquer interior menos preparado.
Passamos grande parte "do tempo
ruminando sobre acontecimentos do passado ou por outro lado, preocupados e
ansiosos com situações que ainda não chegaram e que provavelmente nunca
chegarão, pelo menos de acordo com os que conjecturámos. Diria portanto, que
vivemos a maior parte da nossa vida ausentes, fora da única entidade que existe
- o momento presente, presos à ilusão de permanência.
A maioria das pessoas vive segundo um
plano pré estabelecido, em que grande parte da sua existência está orientada
para actividades quase transversais: passar a adolescência e inicio da idade
adulta mergulhadas em livros cujos conteúdos não se incorporam necessariamente
em conhecimento e sapiência para um "melhor viver"; conseguir um trabalho que permita sustento
económico e o máximo de conforto externo; preencher o dia com actividades
mundanas, equacionando objectivos que não vão além de ter casa de férias ou
aquele carro moderno, quem sabe casar, ter filhos e trabalhar, trabalhar,
trabalhar, na ânsia de posteriormente " gozar" o que há-de vir, mas
que raramente chega, porque nos tornámos vitimas do cansaço e vazio interior
que alimentámos.
Enchemos a vida coma actividades e
tarefas sistematizadas, compulsivas, a
que cegamente gostamos de designar responsabilidades e feitos da vida adulta,
mas que não passam de uma celebração da forma e do ego, deixando muito pouco
espaço para pensar sobre o que realmente importa e para o crescimento interior.
Tornámo-nos criaturas egoístas, egocêntricas, pouco humildes, que se comportam
como sendo indissociáveis do resto da natureza; julgamo-nos seres superiores,
criados, claro está, à imagem e semelhança de um Deus perfeito, mas que nos
castiga pelas nossas imperfeições e pecados.
No mínimo paradoxal.
Todas as agressões aos outros seres e
elementos da Natureza, são justificados em prol da sobrevivência e do "bem comum", que de comum apenas
tem a inconsciência humana. Esquecemo-nos de que nada pode existir de forma
isolada e sem continuidade e tudo o que fazemos terá efeitos no todo do qual
fazemos parte. O preço a pagar será caro e provavelmente não teremos saldo para
cobrir tamanha dívida.
Com uma alma semelhante a um copo
vazio, deambulamos pela vida como
sonâmbulos, apegando-nos às coisas, às
situações, ao ego e vivemos para acumular e ter. Julgamos que as coisas materiais, as formas,
tais como, os carros, casas, papel profissional, imagem física, entre
outros, definem a nossa identidade e é
dessa forma superficial que julgamos os outros. E quando as formas se
transformam e desvanecem, como por exemplo a perda de um corpo esbelto em
consequência do envelhecimento, sentimo-nos perdidos, esburacados, porque de
facto, não construímos mais nada para além disso. Apegámo-nos à forma,
esquecendo a sua efemeridade.
A pressão idiossincrática cultural e
social do que é correcto e errado, do que é aceitável e inaceitável do que é
bonito ou feio, serve como barómetro do que julgamos ser enquanto pessoas. Identificando nos com essas noções e podemos
acreditar que face a determinadas perdas está vinculada uma perda de dignidade
: alguém que se torna dependente de terceiros para se autocuidar, por exemplo.
Esquecemos a pessoa, o invisível e inominável.
Não obstante, em raros momentos, cada
um de nós é invadido por uma sensação de desconforto, que advém de um singelo
momento de consciência, em que auto-questionamos o rumo que estamos a dar às
nossas vidas, a sensação de vazio e de incompletude que nos preenche, de falta
de sentido. Talvez nesses momentos, sejamos inundados por motivação e abertura
para nós mesmos, numa ânsia de crescimento, plenitude e sintonia interna e
externa. Poderemos ser assombrados por questões como : estarei a contribuir
para a minha comunidade, para a Natureza? tenho uma alma com quem partilhar a
vida? Sei o que é o Amor? Estou em sintonia comigo mesmo, como a minha
essência, como a humanidade, tanto quando posso ser e estar?
Talvez pensemos em começar a praticar
alguma actividade espiritual, a meditar, a ter mais contacto com a natureza, em
oferecermo-nos como voluntários, em ser mais tolerantes e humildes ou viver num
local mais sereno e sem tantos confortos externos; não obstante, passado algum tempo, voltamos
exactamente aos mesmos padrões ocos, fúteis, robotorizados.
E porque será que é tão difícil para o
ser humano abandonar estes padrões? Porque será que passamos o tempo ocupados,
para que não reste espaço para o silêncio, para o vazio, para a serenidade?
porque temos tanto receio do silêncio, que conforto encontramos no ruído? Será
porque corremos o risco de confronto com aquele ser com quem passámos toda a
vida, mas que a maioria de nós não chegou a conhecer? qual a génese do medo do
eu? Teremos receio de chegar à conclusão que não sabemos quem somos ou que não
gostamos do ser que nos tornámos ? quem
é o "verdadeiro eu"?
Numa perspectiva de mindfullness
poderíamos considerar que tal resistência ao movimento interior é causado pelo
ego, que tenta salvaguardar a nossa identificação com o mesmo, contaminando-nos
com ruído constante e ruminações negativas, que julgamos fazerem parte do que
somos, da nossa verdadeira natureza. Mas naqueles parcos momentos em que nos
abandonamos na contemplação de uma
paisagem bela, no espaço entre duas notas musicais, entre cada inspiração,
tocamos a face mais pura e descontaminada que nos habita, pois tal como as
formas não teriam existência sem o espaço, o som não existiria sem o silêncio,
também nós não poderíamos existir sem essa dimensão informe, espacial,
silenciosa, que constitui a essência de quem somos. Essas duas dimensões da
realidade - forma e essência, constituem o Ser. Não será por acaso que ao
contemplarmos algo belo, muitas vezes, só conseguimos dizer que ficámos sem
fôlego, sem palavras, como se por magia congelássemos o tempo entre duas
inspirações, pairando em suspenso nesse espaço vazio e etéreo.
Por outro lado, se em parcos momentos
nos conseguimos colocar em perspectiva, pensar sobre o que pensa, tendo
consciência dos pensamentos gerados pela nossa mente, das nossas emoções e do
seu impacto visceral, é porque a totalidade do nosso eu está para além disso.
Há mais um elemento em nós que desconhecemos. Neste âmbito, ao sermos
espectadores de nós mesmos, podemos reconhecer as emoções e pensamentos que se
esculpem diante dos nossos olhos
penetrar na experiência profundamente, e sem interferir, deixar que os
pensamentos e emoções se afastem, sem
nos apegarmo-mos a eles. Mais lúcidos,
iremos conseguir largá-los e deixar de ter medo.
Mara Sarmento
![]() |
| Mara Sarmento Drawing |

Os momentos de êxtase, em que o tempo parece parar e nos ausentamos do mundo, para nos tornarmos essência desse mesmo mundo, são raros, mas existem e dão-nos a certeza, apesar de todos os pesares, de que fazemos parte de algo grandiosamente belo, em que as mundanices são apenas uma efémera passagem para algo bem maior e extraordinário. Mas, para regressarmos a "CASA", parece que temos inevitavelmente que passar aqui primeiro. Abraço
ResponderEliminarPalavras sábias Teresa. Beijinho
Eliminar