quarta-feira, 19 de março de 2014

Cálices de Luz

O fascínio do homem pela luz e pelo ruído é indiscutível. Ao irem ao encontro do "cheio", do "pleno", do que "existe" e " tem lugar", permitem o preenchimento e assombramento dos sentidos sobre as formas mais variadas, desde o singelo candeeiro que permite iluminar a rua estreita e solitária,  à produção de electricidade pelas grandes centrais eléctricas,  ao uso da luz na fotografia e do som na construção de melodias, etc. Todo este sumo da existência humana, que se torna "corporizado" mediante o uso da luz e do som, será póstumo de uma modelagem, individual e colectiva, no que concerne à forma como cada um de nós pensa, sente, cria, é. O que é criado através destes veículos mágicos, não somente depende da bagagem de quem o cria, como irá ser transformado, reproduzido em sentir, por todos aqueles que o incorporam; Estes passam a recriar não somente a obra, como principalmente o seu  espaço interno, outrora diferente, que agora se vê  mais preenchido, mais rico, transformado  -  não o mesmo, mas outro, que ocupa um lugar já diferente, mesmo que a consciência pouco presente, não consiga agregar essa mudança em si, pois tamanha transformação parece ocorrer em silêncio, mais  ao nível  da " essência" do que da " forma".

E porque terá o homem, esta necessidade desenfreada do preenchimento, do " total", do que existe", "tem lugar", "é visto"? Porque permanece a mente sempre tão absorta, cheia, com monólogos internos que, fogem ao nosso controlo, e que muitas das vezes, são causa de sofrimento e mal estar? Não seria então  benéfico aceder a  esses espaços vazios, hiatos entre estímulos, entre imagens, entre formas, em muitos momentos da vida? 

Ora a minha reflexão está voltada para o papel essencial do silêncio, do escuro, do vazio enquanto condição essencial para o nascimento de todos estes processos de luz, som, criação, bem como, apaziguamento e consciência interna.

Para que um som, a luz e o preenchimento existam e tenhamos consciência da sua existência há uma condição essencial  para cada uma delas - a "não existência". A verdadeira essência do espaço onde cada um destes elementos existe é o nada. Uma ideia que inicialmente pode parecer estranha, é em boa verdade,  bastante simples. Somente é possível ter consciência do som de uma melodia, a partir do silêncio;  o som só adquire existência porque houve um espaço vazio, de silêncio, antes e depois deste ter lugar. O mesmo se passa com o luz; Que encanto teria a luz, sem o mistério e charme das sombras? É a sombra que confere palco para a posterior explosão de informação e cor, através do emergir da luz.  De certo Leonardo da Vinci, concordaria que a luz nasce das sombras.

  O mesmo se passa no contexto de experiências humanas e de desenvolvimento interno, se quisermos polarizar a sombra como experiências " negativas". Muitas vezes precisamos experienciar o que é o sofrimento, mergulhar plenamente nas experiência,  para ulteriormente nos conseguirmos desapegar e consequentemente libertar da angústia inerente. Pena que a nossa mente seja tão sofregamente resistente em aceitar olhar para o lado menos leve, para os sentimentos e emoções mais pesadas e difíceis que nos visitam e que não nos permitimos conhecer; ao desconhecê-las, mantemo-nos apegados às mesmas, e principalmente ao medo e angústia de sermos novamente assombrados pela sua visita. E assim existimos grande parte do tempo, desperdiçando o potencial de ascensão e verdadeira " felicidade", que vive adormecido na maioria de nós.

Coincidência ou não, recentemente comecei a ler um livro, e qual não foi o meu espanto quando me deparei exactamente com a abordagem desta dualidade " existência / não existência", sob uma perspectiva do ser, a qual achei brilhante e apaziguadora; passo a transcrever um  dos excertos: " A dupla realidade do universo composto por coisas e espaço - forma e nada, é igualmente a nossa realidade . Uma vida humana saudável , equilibrada e proveitosa é uma dança entre as duas dimensões que constituem a realidade : a forma e o espaço. A maior parte das pessoas identifica-se a tal ponto com a dimensão da forma, com as percepções dos sentidos , com os pensamentos e com as emoções que a outra metade vital que está escondida se encontra ausente das suas vidas. A sua identificação com a forma mantêm-nas presas ao ego" ( Tolle, 2006). Neste âmbito, tal com as formas não teriam existência sem o espaço, o som não existiria sem o silêncio, também nós não poderíamos existir sem essa dimensão informe, espacial, silenciosa, que constitui a essência de quem somos. Essas duas dimensões da realidade - forma e essência, constituem o Ser.

E como seria habitar esse espaço etéreo, profundo, que faz ressonância com a serenidade, silêncio e profundeza do universo? Como seria se a nossa mente conseguisse " desligar" por breves ensejos e apenas repousar nesse espaço despido? Será que nos conseguiríamos reconectar mais facilmente com o nosso mundo interno, com aquele que tem consciência de que pensa e sente, ao ponto de nos desprendermos da identificação patológica com a forma e com a mente? Muito provavelmente será esse espaço de serenidade plena, esse cálice de apaziguamento interior,  que se tenta alcançar quando meditamos, pois nesse momento, o que se pretende é um estado de presença tal, que só é possível silenciando o ruído envolvente e especialmente aquele que mais ecoa no nosso ser - a mente. E quem dera calar a mente, sempre tão ruidosa!

Contudo, não é fácil ultrapassar a barreira entre o plano conceptual e a sua aplicação, no sentido de conseguirmos estar plenamente presentes,  livres, unos, alcançando uma serenidade  almejada. Mas apesar de difícil, creio que pode ser um caminho para atingir um conhecimento de quem somos, da interligação entre tudo o que existe, da essência para além dos sentidos -  de forma presente, desprendida, não resistente.
 Por enquanto durmo nas minhas sombras, espreitando um tão almejado vislumbre de luz.

Mara Sarmento


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